Inauguração da TV Tupi, em 18 de setembro de 1950
A História da Televisão Brasileira
[17/07/2004]

Ao fim dos anos 40 e início dos anos 50, o dono dos diários associados, o paraibano Assis Chateaubriand decide implantar a primeira emissora de TV da América Latina e a quarta do mundo. Uma empreitada respeitável, mesmo para quem detinha um império das comunicações, composto por diversos jornais e emissoras de rádio. Mas Chatô – como alguns o chamavam – era um homem determinado em seus objetivos. E era de um temperamento...

Para se ter uma idéia do gênio do baixinho, durante as negociações com a empresa americana RCA Victor, ele se encontrou com os executivos e, após a assinatura do contrato de fornecimento dos equipamentos da nova emissora, que na época custou 5 milhões de dólares, os executivos convidaram Chatô para uma demonstração de uma nova tecnologia que estava sendo desenvolvida: a transmissão de tv em cores. Ao invés de admiração e elogios, o paraibano se alterou, rasgou o contrato e se recusou a comprar “material obsoleto”, ou seja, os equipamentos para transmissão em preto e branco. Foi muita luta convencer o jornalista de que o processo era experimental e que levariam anos até se viabilizar comercialmente a novidade. O que de fato só ocorreu em fins dos anos 60.

Por estes e outros aspectos esdrúxulos que este fato histórico merece estampar nossa seção. Segue abaixo a versão Crazyman do que ocorreu naquelas semanas que antecederam tal fato. Chatô convidou Mário Aldeghiri para a direção técnica, que por sua vez chamou para seu assistente Jorge Edo, ambos com experiência técnica em equipamentos de transmissão. Para a direção artística, foi convocado Dermival Costa Lima, que elegeu o ainda jovem Cassiano Gabus Mendes como seu principal assistente. A tarefa delegada a estes homens não seria das mais fáceis. A dupla Cássio e Lima deveria organizar algo sem precedentes naquelas plagas, praticamente criando um modelo do nada. Mas estas eram algumas das dificuldades. Os responsáveis técnicos, a dupla Mário-Edo, estavam enfrentando algumas dificuldades também. Aí começa a nossa história...

Faltava um mês para o dia determinado pelo rei Assis para que a emissora de TV passasse a funcionar. Vindo direto da terra do Tio Sam, o engenheiro Obermüller que viria ajudar a montar os equipamentos é recebido por Mário e seu escudeiro Edo.

- Seja bem-vindo ao Brasil.
- Muito obrigado. País simpático, este seu. Meio quente...
- Você se acostuma. Temos um mês inteiro pela frente.
- Mas antes de começarmos, queria perguntar algo para vocês dois...
- Manda.
- Quantos aparelhos de TV foram vendidos à população? Já atingiu a casa dos milhares?
Mário e Edo se entreolham, dão de ombros e respondem ao engenheiro.
- Éééé...nenhum.
A princípio, o americano acha que não se fez claro em seu inglês, depois pergunta:
- Vocês tão me gozando, né?
- Não, senhor. Ninguém tem aparelho de TV na cidade.
O americano pesa as palavras e toma ciência dos fatos.
- Puta que pariu! Como diabos vamos inaugurar uma TV sem ter ninguém para assistir?
- Não são estes pequenos detalhes técnicos que devemos tratar?
- Pequenos detalhes o cacete! Vou voltar pros States agora! Me chamem de volta daqui a um ano!

Após muito esforço, o engenheiro americano foi convencido a ter uma reunião com Chateaubriand. Nessa reunião, o gringo expôs a natureza do problema, pois uma soma vultosa estava sendo investida em uma emissora que teria audiência zero no dia da inauguração. Assis, com uma tranqüilidade ímpar, disse que estes problemas eram de fácil solução e mandou ele prosseguir com os trabalhos que ele iria pessoalmente tratar do assunto.

Após este sufoco inicial, o engenheiro é chamado para uma reunião mais informal, regada a cerveja em um boteco.

- Como diabos vocês acham que no pouco tempo que nos resta haverá aparelhos de TV suficientes à venda aqui em São Paulo?
- Ah, você não conhece o senhor Assis. Ele já ligou para uma importadora pedindo os aparelhos de TV – diz Mário.
- Mas temos poucos dias para trazer estas bugigangas, e um processo de importação é demorado. O desembaraço alfandegário pode levar semanas, meses, mesmo com toda moral que o chefe tem com o governo – questiona Edo.
- Ora, bolas. Se bem conheço o chefe, vai se dar um jeitinho.
Neste momento, Chatô estava falando com o dono de uma empresa de importação e exportação e estava praticamente exigindo que ele importasse dos Estados Unidos mais de 200 aparelhos de TV.
- Mas seu Assis, a coisa não é tão simples.
- Como não. A venda é garantida. Se ninguém comprar, eu mesmo compro esta porra!
- Mas não é isso. É que um processo de importação destes demoraria uns dois meses, pelo menos, para ser liberado pelo Ministério da Fazenda...
- Eu sou assim com o Presidente Dutra, homem! Não tem problema!
- Mesmo assim, acho pouco provável que estes aparelhos estejam aqui na data que o senhor pediu.
- Cacete! Então que se foda o Ministério da Fazenda! Traga tudo de contrabando.
- Mas seu Assis, isso não vai dar certo...
- Não esquenta, homem! Eu me responsabilizo! O primeiro aparelho de TV vai para o Palácio do Catete, como presente para o presidente Dutra.
- Mas a TV vai pegar no Rio de Janeiro também?
- Você se preoculpa muito com detalhes. Vai lá providenciar os receptores, vai!

Como resultado, em poucos dias as lojas estavam cheias de aparelhos de TV a venda em suas vitrines. Só que as coisas estavam para desandar. Edo chega assustado, segurando um jornal, que joga a mesa de Mário.

- Dá uma lida na página policial.
Mário percorre os olhos nas manchetes e encontra uma reportagem sobre uma investigação que a polícia estava levando a cabo sobre o contrabando de milhares de aparelhos de TV para São Paulo.
- Ah, merda! Mais essa agora?!
- Os donos das lojas devem estar com o cu na mão. Vai azedar tudo.
- O cacete que vai. Vou ligar para Assis agora mesmo. Este jornal é dele.
Entrementes, o editor do jornal aonde foi veiculada a notícia com tanto destaque chama em sua sala o repórter responsável pelo furo.
- Foi o senhor quem redigiu esta reportagem?
- Sim, seu Monteiro. Achei que seria uma boa pra página policial. E ainda tem mais a ser publicado na edição de amanhã. Gostou? Coloquei em destaque e, ainda por cima, exagerei um pouquinho...
Monteiro bate a mão fechada na mesa com violência.
- SEU PORRA, ACABEI DE LEVAR UMA COMIDA DE RABO DE SEU ASSIS POR CAUSA DESSA REPORTAGEM! TEM ALGUMA IDÉIA DE QUEM ESTÁ POR TRÁS DESTA REMESSA DE TELEVISORES PARA SÃO PAULO? JÁ PASSOU PELA SUA CABEÇA QUEM, NO MOMENTO, TEM MAIS INTERESSE EM TRAZER ESTE MONTE DE APARELHOS DE TV? SE LEMBRA QUE TEM UMA EMISSORA DE TV PARA SER INAUGURADA?
- Sim, sinhô...
- E POR ACASO TU TEM IDÉIA DE QUEM É O DONO DESTA TV, QUE POR COINCIDÊNCIA É O DONO DESTE E DE OUTROS JORNAIS?
- Foi mau, chefinho. Mas como diabos eu iria saber?
- Se vire e enterre esta notícia. E eu tenho é que me explicar na Associação Comercial com os donos da loja. Eles tão se cagando de medo de serem acusados de receptação de mercadoria contrabandeada!

E realmente os proprietários das lojas estavam temerosos em serem envolvidos numa acusação por receptação de material contrabandeado. O editor do “Diário da Noite” tranqüilizou-os, e nenhuma palavra sobre o assunto voltou a ser citada naquele veículo.

A inauguração foi marcada para 18 de setembro de 1950. As primeiras transmissões mostrariam o tradicional batismo e bênção dos estúdios e equipamentos e se encerrariam com um show às nove horas, antecedido por algumas enquetes. Por conselho do engenheiro americano, a parte sacra da inauguração- a bênção dos equipamentos – foi reduzida e o início das transmissões foi adiado para as sete horas.

O dia finalmente chegara. A cerimônia marcada para as cinco da tarde começou sem atrasos ou imprevistos, com os discursos de praxe e com o padre benzendo os equipamentos. No estúdio, Edo, Mário e o engenheiro americano acertavam os últimos detalhes técnicos para fazer três câmeras funcionarem, enquanto Dermival e Cássio espalhavam pequenos cartazes com lembretes para os locutores e cantores, além de marcar o chão com giz nos locais onde estes deveriam ficar durante a transmissão. Chegou a hora esperada. No Jóckey Club, o restaurante estava apinhado de gente aguardando a primeira transmissão. Ao acender a luz da primeira câmera, Wlater Foster anuncia imponente:

- Está no ar a PRF-3-TV Tupi de São Paulo, a primeira estação de televisão da América Latina.
Segundos depois, alguém da equipe técnica fala.
- Não tá no ar porra nenhuma. Tem algum problema.

Todos já estavam ansiosos e agora estavam nervosos. Mário pergunta aos técnicos:
- Que porra tá acontecendo?
- Uma das câmeras pifou.
- Como pifou? As 3 câmeras estavam funcionando que é uma beleza!
- Pois é! Por acaso alguém jogou água por aqui.
- Claro que não! A não ser...ah, eu não acredito! O padre benzeu as câmeras com água benta!

Ai, jesus! Devo ter jogado pedra na Cruz!
- Ih, que chato...
- Chato? Se a gente não botar isso para rodar, tamos fudidos! Conserta esta porra!

Após alguns minutos, ninguém conseguiu fazer funcionar a câmera defeituosa.
- Tem jeito não, seu Edo. A benzida foi forte.
- Danou-se! Lima e Cássio, vocês vão ter que se virar com duas câmeras!
- Mas todo mundo ensaio para atuar diante de três...
- E daí? Quantas pessoas no Brasil você acha que já assistiram um programa de TV? Ninguém vai notar a diferença...
- Ô seu Mário, tem mais uma coisinha...- interrompe o técnico.
- Ah, merda! O que foi, agora?
- Do jeito que a coisa tá montada, não vai funcionar.
- Como é?
- Se uma das câmeras parar, as demais não funcionam.

Ao telefone, Jorge Edo atende o secretário de Chatô, que questiona:
- O que diabos tá havendo? Por que ainda não começaram a transmitir.
- Probleminhas técnicos. Pede para ir enrolando o pessoal. Nisso, ele é bom
- Ele tá é muito puto! Ponham isso pra rodar!

Como ninguém conseguia fazer os equipamentos funcionarem e o secretário do homem ligava a cada 5 minutos para dizer que o patrão tava puto e que iria demitir todo muno.
- Pessoal, seu Assis mandou dizer que se isso não funcionar nos próximos minutos, a enrabada vai ser tão grande eu vocês vão ficar com a garganta doendo...
, O engenheiro americano Obermüller decreta.
- Por mim, a inauguração está cancelada. Não há condições técnicas para prosseguirmos. Eu sou o responsável pela transmissão e a estou adiando...
- No cu, gringo! – interrompe Cassiano – Mário e Jorge, dêem um jeito de fazer as duas câmeras rodarem.
- Como, oras?
- Dêem seus pulos, cacete! Já esqueceram o humor de nosso chefe? Vão, vão!

Cassiano apanha um microfone e conversa com o elenco.
- Vocês se lembram de tudo do ensaio?
Todos respondem que sim, em uníssono.
- Pois esqueçam tudo, que não vai valer mais porra nenhuma! Vamos improvisar!
- Como improvisar? – pergunta uma cantora.
- Improvisando, oras! Façam o que eu mandar, que assim que as câmeras estiverem funcionando, iremos ao ar.

Dermival toma o microfone e reforça a idéia.
- Esta porra vai ao ar com duas, uma ou nenhuma câmera funcionando. Quem manda agora nessa porra sou eu!
- E eu! – completa Cassiano.

O engenheiro americano fica estupefato e indignado.
- Vocês são doidos! Em um país civilizado ninguém seria louco em por uma estação de TV em condições tão precárias!
- É que nestes países não deve ter um patrão como Assis – responde Cassiano.
- Ah, desisto! Vou para meu hotel encher a cara! Estarei acompanhado de um litro de Whisky para assistir este desastre a uma distância segura.

O americano deixa a equipe e volta ao hotel. Após uma hora e meia e uma garrafa inteira de Whisky, Obermüller começa a assistir a transmissão fadada ao desastre. E contra todas as expectativas, o negócio até que rodou direitinho. Walter Foster conseguiu abrir as transmissões, que tiveram como atrativos apresentações de artistas como a rumbeira cubana Rayito de Sol ou a orquestra de Georges Henri. Como Jorge Edo comentou, ninguém percebeu o clima de improviso. Provavelmente só Obermüller. Aliás, talvez nem este, pois sua percepção não deveria estar das melhores.

O encerramento das transmissões já estava próximo. Todos estavam respirando aliviados e relaxando seus esfíncteres. Só faltava Hebe Camargo entrar e cantar o jingle composto especialmente para a ocasião, a “Canção da TV”.
- Pelo menos está tudo dando certo...- comenta Cassiano.
- Estava – corrige Dermival, que aparenta certo nervosismo.
- Ah, caralho! Que foi agora?
Entra Hebe Camargo, falando roucamente.
- Não sei o que aconteceu...
- Ah, meus pecados estão sendo cobrados! O que faremos.
- O que estamos fazendo até agora. Improvisar. Se for preciso, eu mesmo vou lá e canto!

Não foi preciso que Cassiano revelasse seus talentos musicais, pois uma dupla de cantoras assumiu as funções de Hebe. A voz afinada de ambas encerara a transmissão. Ao fim, quase todo mundo fala:
- Puta que pariu! Ainda bem que acabou...
Quase que ao mesmo tempo, chegam aos estúdios Assis Chateaubriand e o engenheiro Obermüller, sendo que este estava mais pra lá do que pra cá. Este fala para Cassiano, já com a língua meio enrolada.
- Vocês são foda! Seus malucos, vocês conseguiram! Vocês são gênios! Rapaz...quando eu contar o que aconteceu aqui, ninguém vai acreditar...e o mais engraçado é que deveria ter mais gente aqui no estúdio do que assistindo a Tv...
- Ô Obermüller...
- Sim ?
- Sobrou algum uísquizinho aí? Acredite, preciso tomar uma grande...

Crazy Mann faz História

Uma nova seção feita para reverenciar os fatos históricos e contá-los a partir do ponto de vista CrazyMann, ou seja, do ponto de vista de alguém que não apareceu nos livros, nem se quer como figurante. Como falamos no jornalismo, a nossa verdade dos fatos. Não sei se a justa, a de fato verdade, mas a nossa. Narrando fatos marcantes, descobrindo caminhos nunca antes trilhados pela literatura, nós estaremos trazendo com todo empenho, textos sobre pesonalidades e fatos marcantes. Esperamos que vocês gostem e claro que se divirtam.