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Ao
fim dos anos 40 e início dos anos 50, o dono dos
diários associados, o paraibano Assis Chateaubriand
decide implantar a primeira emissora de TV da América
Latina e a quarta do mundo. Uma empreitada respeitável,
mesmo para quem detinha um império das comunicações,
composto por diversos jornais e emissoras de rádio.
Mas Chatô – como alguns o chamavam – era
um homem determinado em seus objetivos. E era de um temperamento...
Para se ter uma idéia do gênio do baixinho,
durante as negociações com a empresa americana
RCA Victor, ele se encontrou com os executivos e, após
a assinatura do contrato de fornecimento dos equipamentos
da nova emissora, que na época custou 5 milhões
de dólares, os executivos convidaram Chatô
para uma demonstração de uma nova tecnologia
que estava sendo desenvolvida: a transmissão de tv
em cores. Ao invés de admiração e elogios,
o paraibano se alterou, rasgou o contrato e se recusou a
comprar “material obsoleto”, ou seja, os equipamentos
para transmissão em preto e branco. Foi muita luta
convencer o jornalista de que o processo era experimental
e que levariam anos até se viabilizar comercialmente
a novidade. O que de fato só ocorreu em fins dos
anos 60.
Por estes e outros aspectos esdrúxulos que este fato
histórico merece estampar nossa seção.
Segue abaixo a versão Crazyman
do que ocorreu naquelas semanas que antecederam tal fato.
Chatô convidou Mário Aldeghiri para a direção
técnica, que por sua vez chamou para seu assistente
Jorge Edo, ambos com experiência técnica em
equipamentos de transmissão. Para a direção
artística, foi convocado Dermival Costa Lima, que
elegeu o ainda jovem Cassiano Gabus Mendes como seu principal
assistente. A tarefa delegada a estes homens não
seria das mais fáceis. A dupla Cássio e Lima
deveria organizar algo sem precedentes naquelas plagas,
praticamente criando um modelo do nada. Mas estas eram algumas
das dificuldades. Os responsáveis técnicos,
a dupla Mário-Edo, estavam enfrentando algumas dificuldades
também. Aí começa a nossa história...
Faltava um mês para o dia
determinado pelo rei Assis para que a emissora de TV passasse
a funcionar. Vindo direto da terra do Tio Sam, o engenheiro
Obermüller que viria ajudar a montar os equipamentos
é recebido por Mário e seu escudeiro Edo.
- Seja bem-vindo ao Brasil.
- Muito obrigado. País simpático, este seu.
Meio quente...
- Você se acostuma. Temos um mês inteiro pela
frente.
- Mas antes de começarmos, queria perguntar algo
para vocês dois...
- Manda.
- Quantos aparelhos de TV foram vendidos à população?
Já atingiu a casa dos milhares?
Mário e Edo se entreolham, dão de ombros e
respondem ao engenheiro.
- Éééé...nenhum.
A princípio, o americano acha que não se fez
claro em seu inglês, depois pergunta:
- Vocês tão me gozando, né?
- Não, senhor. Ninguém tem aparelho de TV
na cidade.
O americano pesa as palavras e toma ciência dos fatos.
- Puta que pariu! Como diabos vamos inaugurar uma TV sem
ter ninguém para assistir?
- Não são estes pequenos detalhes técnicos
que devemos tratar?
- Pequenos detalhes o cacete! Vou voltar pros States agora!
Me chamem de volta daqui a um ano!
Após muito esforço, o engenheiro americano
foi convencido a ter uma reunião com Chateaubriand.
Nessa reunião, o gringo expôs a natureza do
problema, pois uma soma vultosa estava sendo investida em
uma emissora que teria audiência zero no dia da inauguração.
Assis, com uma tranqüilidade ímpar, disse que
estes problemas eram de fácil solução
e mandou ele prosseguir com os trabalhos que ele iria pessoalmente
tratar do assunto.
Após este sufoco inicial, o engenheiro é chamado
para uma reunião mais informal, regada a cerveja
em um boteco.
- Como diabos vocês acham que no pouco tempo que nos
resta haverá aparelhos de TV suficientes à
venda aqui em São Paulo?
- Ah, você não conhece o senhor Assis. Ele
já ligou para uma importadora pedindo os aparelhos
de TV – diz Mário.
- Mas temos poucos dias para trazer estas bugigangas, e
um processo de importação é demorado.
O desembaraço alfandegário pode levar semanas,
meses, mesmo com toda moral que o chefe tem com o governo
– questiona Edo.
- Ora, bolas. Se bem conheço o chefe, vai se dar
um jeitinho.
Neste momento, Chatô estava falando com o dono de
uma empresa de importação e exportação
e estava praticamente exigindo que ele importasse dos Estados
Unidos mais de 200 aparelhos de TV.
- Mas seu Assis, a coisa não é tão
simples.
- Como não. A venda é garantida. Se ninguém
comprar, eu mesmo compro esta porra!
- Mas não é isso. É que um processo
de importação destes demoraria uns dois meses,
pelo menos, para ser liberado pelo Ministério da
Fazenda...
- Eu sou assim com o Presidente Dutra, homem! Não
tem problema!
- Mesmo assim, acho pouco provável que estes aparelhos
estejam aqui na data que o senhor pediu.
- Cacete! Então que se foda o Ministério da
Fazenda! Traga tudo de contrabando.
- Mas seu Assis, isso não vai dar certo...
- Não esquenta, homem! Eu me responsabilizo! O primeiro
aparelho de TV vai para o Palácio do Catete, como
presente para o presidente Dutra.
- Mas a TV vai pegar no Rio de Janeiro também?
- Você se preoculpa muito com detalhes. Vai lá
providenciar os receptores, vai!
Como resultado, em poucos
dias as lojas estavam cheias de aparelhos de TV a venda
em suas vitrines. Só que as coisas estavam para desandar.
Edo chega assustado, segurando um jornal, que joga a mesa
de Mário.
- Dá uma lida na página policial.
Mário percorre os olhos nas manchetes e encontra
uma reportagem sobre uma investigação que
a polícia estava levando a cabo sobre o contrabando
de milhares de aparelhos de TV para São Paulo.
- Ah, merda! Mais essa agora?!
- Os donos das lojas devem estar com o cu na mão.
Vai azedar tudo.
- O cacete que vai. Vou ligar para Assis agora mesmo. Este
jornal é dele.
Entrementes, o editor do jornal aonde foi veiculada a notícia
com tanto destaque chama em sua sala o repórter responsável
pelo furo.
- Foi o senhor quem redigiu esta reportagem?
- Sim, seu Monteiro. Achei que seria uma boa pra página
policial. E ainda tem mais a ser publicado na edição
de amanhã. Gostou? Coloquei em destaque e, ainda
por cima, exagerei um pouquinho...
Monteiro bate a mão fechada na mesa com violência.
- SEU PORRA, ACABEI DE LEVAR UMA COMIDA DE RABO DE SEU ASSIS
POR CAUSA DESSA REPORTAGEM! TEM ALGUMA IDÉIA DE QUEM
ESTÁ POR TRÁS DESTA REMESSA DE TELEVISORES
PARA SÃO PAULO? JÁ PASSOU PELA SUA CABEÇA
QUEM, NO MOMENTO, TEM MAIS INTERESSE EM TRAZER ESTE MONTE
DE APARELHOS DE TV? SE LEMBRA QUE TEM UMA EMISSORA DE TV
PARA SER INAUGURADA?
- Sim, sinhô...
- E POR ACASO TU TEM IDÉIA DE QUEM É O DONO
DESTA TV, QUE POR COINCIDÊNCIA É O DONO DESTE
E DE OUTROS JORNAIS?
- Foi mau, chefinho. Mas como diabos eu iria saber?
- Se vire e enterre esta notícia. E eu tenho é
que me explicar na Associação Comercial com
os donos da loja. Eles tão se cagando de medo de
serem acusados de receptação de mercadoria
contrabandeada!
E realmente os proprietários das lojas estavam temerosos
em serem envolvidos numa acusação por receptação
de material contrabandeado. O editor do “Diário
da Noite” tranqüilizou-os, e nenhuma palavra
sobre o assunto voltou a ser citada naquele veículo.
A inauguração foi marcada para 18 de setembro
de 1950. As primeiras transmissões mostrariam o tradicional
batismo e bênção dos estúdios
e equipamentos e se encerrariam com um show às nove
horas, antecedido por algumas enquetes. Por conselho do
engenheiro americano, a parte sacra da inauguração-
a bênção dos equipamentos – foi
reduzida e o início das transmissões foi adiado
para as sete horas.
O dia finalmente chegara. A cerimônia marcada para
as cinco da tarde começou sem atrasos ou imprevistos,
com os discursos de praxe e com o padre benzendo os equipamentos.
No estúdio, Edo, Mário e o engenheiro americano
acertavam os últimos detalhes técnicos para
fazer três câmeras funcionarem, enquanto Dermival
e Cássio espalhavam pequenos cartazes com lembretes
para os locutores e cantores, além de marcar o chão
com giz nos locais onde estes deveriam ficar durante a transmissão.
Chegou a hora esperada. No Jóckey Club, o restaurante
estava apinhado de gente aguardando a primeira transmissão.
Ao acender a luz da primeira câmera, Wlater Foster
anuncia imponente:
- Está no ar a PRF-3-TV Tupi de São Paulo,
a primeira estação de televisão da
América Latina.
Segundos depois, alguém da equipe técnica
fala.
- Não tá no ar porra nenhuma. Tem algum problema.
Todos já estavam ansiosos e agora estavam nervosos.
Mário pergunta aos técnicos:
- Que porra tá acontecendo?
- Uma das câmeras pifou.
- Como pifou? As 3 câmeras estavam funcionando que
é uma beleza!
- Pois é! Por acaso alguém jogou água
por aqui.
- Claro que não! A não ser...ah, eu não
acredito! O padre benzeu as câmeras com água
benta!
Ai, jesus! Devo ter jogado pedra na Cruz!
- Ih, que chato...
- Chato? Se a gente não botar isso para rodar, tamos
fudidos! Conserta esta porra!
Após alguns minutos, ninguém conseguiu fazer
funcionar a câmera defeituosa.
- Tem jeito não, seu Edo. A benzida foi forte.
- Danou-se! Lima e Cássio, vocês vão
ter que se virar com duas câmeras!
- Mas todo mundo ensaio para atuar diante de três...
- E daí? Quantas pessoas no Brasil você acha
que já assistiram um programa de TV? Ninguém
vai notar a diferença...
- Ô seu Mário, tem mais uma coisinha...- interrompe
o técnico.
- Ah, merda! O que foi, agora?
- Do jeito que a coisa tá montada, não vai
funcionar.
- Como é?
- Se uma das câmeras parar, as demais não funcionam.
Ao telefone, Jorge Edo atende o secretário de Chatô,
que questiona:
- O que diabos tá havendo? Por que ainda não
começaram a transmitir.
- Probleminhas técnicos. Pede para ir enrolando o
pessoal. Nisso, ele é bom
- Ele tá é muito puto! Ponham isso pra rodar!
Como ninguém conseguia fazer os equipamentos funcionarem
e o secretário do homem ligava a cada 5 minutos para
dizer que o patrão tava puto e que iria demitir todo
muno.
- Pessoal, seu Assis mandou dizer que se isso não
funcionar nos próximos minutos, a enrabada vai ser
tão grande eu vocês vão ficar com a
garganta doendo...
, O engenheiro americano Obermüller decreta.
- Por mim, a inauguração está cancelada.
Não há condições técnicas
para prosseguirmos. Eu sou o responsável pela transmissão
e a estou adiando...
- No cu, gringo! – interrompe Cassiano – Mário
e Jorge, dêem um jeito de fazer as duas câmeras
rodarem.
- Como, oras?
- Dêem seus pulos, cacete! Já esqueceram o
humor de nosso chefe? Vão, vão!
Cassiano apanha um microfone e conversa com o elenco.
- Vocês se lembram de tudo do ensaio?
Todos respondem que sim, em uníssono.
- Pois esqueçam tudo, que não vai valer mais
porra nenhuma! Vamos improvisar!
- Como improvisar? – pergunta uma cantora.
- Improvisando, oras! Façam o que eu mandar, que
assim que as câmeras estiverem funcionando, iremos
ao ar.
Dermival toma o microfone e reforça a idéia.
- Esta porra vai ao ar com duas, uma ou nenhuma câmera
funcionando. Quem manda agora nessa porra sou eu!
- E eu! – completa Cassiano.
O engenheiro americano fica estupefato e indignado.
- Vocês são doidos! Em um país civilizado
ninguém seria louco em por uma estação
de TV em condições tão precárias!
- É que nestes países não deve ter
um patrão como Assis – responde Cassiano.
- Ah, desisto! Vou para meu hotel encher a cara! Estarei
acompanhado de um litro de Whisky para assistir este desastre
a uma distância segura.
O americano deixa a equipe e volta ao hotel. Após
uma hora e meia e uma garrafa inteira de Whisky, Obermüller
começa a assistir a transmissão fadada ao
desastre. E contra todas as expectativas, o negócio
até que rodou direitinho. Walter Foster conseguiu
abrir as transmissões, que tiveram como atrativos
apresentações de artistas como a rumbeira
cubana Rayito de Sol ou a orquestra de Georges Henri. Como
Jorge Edo comentou, ninguém percebeu o clima de improviso.
Provavelmente só Obermüller. Aliás, talvez
nem este, pois sua percepção não deveria
estar das melhores.
O encerramento das transmissões já estava
próximo. Todos estavam respirando aliviados e relaxando
seus esfíncteres. Só faltava Hebe Camargo
entrar e cantar o jingle composto especialmente para a ocasião,
a “Canção da TV”.
- Pelo menos está tudo dando certo...- comenta Cassiano.
- Estava – corrige Dermival, que aparenta certo nervosismo.
- Ah, caralho! Que foi agora?
Entra Hebe Camargo, falando roucamente.
- Não sei o que aconteceu...
- Ah, meus pecados estão sendo cobrados! O que faremos.
- O que estamos fazendo até agora. Improvisar. Se
for preciso, eu mesmo vou lá e canto!
Não foi preciso que Cassiano revelasse seus talentos
musicais, pois uma dupla de cantoras assumiu as funções
de Hebe. A voz afinada de ambas encerara a transmissão.
Ao fim, quase todo mundo fala:
- Puta que pariu! Ainda bem que acabou...
Quase que ao mesmo tempo, chegam aos estúdios Assis
Chateaubriand e o engenheiro Obermüller, sendo que
este estava mais pra lá do que pra cá. Este
fala para Cassiano, já com a língua meio enrolada.
- Vocês são foda! Seus malucos, vocês
conseguiram! Vocês são gênios! Rapaz...quando
eu contar o que aconteceu aqui, ninguém vai acreditar...e
o mais engraçado é que deveria ter mais gente
aqui no estúdio do que assistindo a Tv...
- Ô Obermüller...
- Sim ?
- Sobrou algum uísquizinho aí? Acredite, preciso
tomar uma grande...
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